
Transição para o modelo circular permite que empresas otimizem recursos, reduzam custos operacionais e gerem novas receitas por meio do reaproveitamento de materiais
A economia circular não deve ser vista apenas como pauta ambiental, mas como uma lógica que, aplicada aos negócios, aumenta a competitividade. A base do modelo é manter as matérias-primas no ciclo econômico pelo maior tempo possível. Fazer essa transição significa deixar de tratar o resíduo como custo de descarte para entendê-lo como recurso que pode ser reinserido na cadeia.
Segundo o Superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Davi Bomtempo, a mudança exige uma revisão profunda de processos, desde a escolha dos insumos até o relacionamento com acionistas. O objetivo é dissociar o crescimento econômico do consumo crescente de recursos virgens, garantindo um desenvolvimento sustentável e resiliente às oscilações do mercado global.
Diferentemente do que muitos gestores acreditam, a economia circular não se limita à reciclagem. A presidente do Instituto Brasileiro de Economia Circular (Ibec), Beatriz Luz, explica que o conceito é mais amplo e envolve um novo design de negócios. O foco deve estar na inteligência aplicada ao projeto do produto, garantindo que ele seja pensado para ser reparado, reutilizado ou desmontado com facilidade.
Ao redesenhar o modelo de negócio, a empresa deixa de vender apenas produto e passa a oferecer soluções que priorizam o uso e o desempenho. Essa mudança de mentalidade é essencial para inovar, criando ciclos fechados onde o desperdício é virtualmente eliminado e a eficiência é maximizada.
Vantagens de adotar o modelo circular
A implementação de práticas circulares oferece vantagens competitivas tangíveis. A principal é a redução de custos operacionais: ao otimizar insumos e reaproveitar materiais que antes seriam descartados, a empresa diminui a dependência de matérias-primas virgens, cujos preços são voláteis. Além disso, a eficiência energética e a redução no consumo de água contribuem para uma operação mais enxuta e menos vulnerável a crises de abastecimento.
Outro ponto relevante é a abertura de novas fontes de receita. Resíduos que geravam despesas de logística e tratamento podem ser transformados em subprodutos ou vendidos como insumo para outras indústrias. Essa simbiose industrial fortalece a cadeia produtiva e cria um ecossistema colaborativo. A adoção do modelo também melhora a imagem da marca perante consumidores conscientes, que priorizam empresas com compromissos claros de sustentabilidade.
Setores como o têxtil, de cosméticos e embalagens já apresentam resultados expressivos. No segmento têxtil, retalhos e peças em desuso são transformados em novos produtos de alto valor, evitando que toneladas de tecido terminem em aterros. Na indústria de cosméticos, o foco em refis e logística reversa permite que recipientes retornem ao ciclo produtivo diversas vezes, reduzindo drasticamente a pegada de carbono.
Acompanhando diversas empresas nessa jornada, Luz cita casos de sucesso na conversão de desperdício em oportunidade. Um deles envolve uma empresa de sanduíches que gerava excedentes de pães. Por meio de uma parceria estratégica com uma indústria de bebidas, o resíduo subutilizado passou a ser a base de uma cerveja de trigo, conhecida como toast brewing. “A empresa criou uma nova marca integrada com outra cadeia, gerando valor, posicionamento e visibilidade inéditos”, afirma.
No Brasil, a presidente do Ibec destaca o exemplo de uma indústria de óleo de babaçu que aproveitava apenas 6% do fruto, descartando os 94% restantes. Após reformular seus processos, a companhia alcançou o aproveitamento integral do recurso, convertendo o descarte em carvão ativado e insumos para o setor de limpeza. Segundo Luz, a transição exige resiliência: “Mudar a lógica de produção depende de investimentos e pode ser complexo no início. Mas é fundamental mapear e reconhecer o potencial de cada negócio, pensando nos resultados de longo prazo”, conclui.
