
Para garantir a perenidade do negócio e proteger o patrimônio familiar construído, é essencial traçar um plano de sucessão, considerar diferentes cenários e se preparar antecipadamente
A sucessão em empresas familiares não é mera troca de comando, mas um processo de longo prazo, que exige planejamento e execução cuidadosos.
O ideal é iniciar cedo, quando ainda há tempo, saúde financeira e diálogo aberto entre as gerações. Como destaca a consultora sênior da Cambridge Family Enterprise Group (CFEG), Mônica Camargo Tracanella, “é comum os atuais gestores aguardarem o momento certo de sair e só então começarem a pensar na sucessão. Mas é preciso lembrar que se trata de um processo e não de um evento, que a sucessão não acontece do dia para a noite”.
A ausência de um planejamento adequado eleva o risco de uma sucessão abrupta, marcada por eventos como o falecimento prematuro do administrador ou a ocorrência de uma crise.
Para se antecipar, o primeiro passo é estabelecer uma agenda recorrente de discussão do tema, envolvendo todos os stakeholders relevantes. É o momento de identificar herdeiros interessados em se tornar sucessores e definir os critérios técnicos e comportamentais necessários para assumir a gestão.
O desenvolvimento do sucessor deve focar nos desafios futuros do negócio, e não na estrutura atual. A escolha precisa ser embasada nas competências estratégicas necessárias para sustentar e evoluir a empresa no próximo ciclo.
Também é fundamental estabelecer uma estrutura de governança robusta, com regras transparentes. “É preciso acessar recursos como Conselhos de Família ou Consultivos. É por meio desses instrumentos que o encaixe de cada uma das habilidades dos sucessores será realizado”, explica a advogada especialista em holding e professora na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Simone Tassinari Cardoso.
Manter o processo em sigilo ou evitar conversas difíceis com o intuito de proteger as relações familiares é um equívoco a ser evitado. A comunicação é imprescindível para lidar com as incertezas que a sucessão gera. “Quanto mais clara a comunicação e mais transparente o processo, maior a chance de preservar relações e garantir uma transição bem-sucedida”, afirma Tracanella.
Estruturas de governança compatíveis com os objetivos de sucessão preparam a empresa para operar como um sistema autônomo, com processos, lideranças e decisões que não dependem exclusivamente da figura do fundador ou dos atuais gestores. Isso é fundamental para a humanização dos negócios e a profissionalização da família, equilibrando os interesses empresariais e os aspectos emocionais envolvidos.
A importância do apoio estratégico
Todas as decisões devem ser formalizadas por meio de ferramentas jurídicas como holdings familiares, acordos de sócios, protocolos familiares e testamentos. O acordo de sócios, por exemplo, é um pré-requisito importante para o plano de sucessão patrimonial, regulando a relação entre as partes e reduzindo conflitos.
Buscar aconselhamento profissional de contadores, advogados e consultores de gestão é outra recomendação das especialistas. O contador, em especial, desempenha um papel essencial na organização e qualidade das informações financeiras para o valuation, na separação entre patrimônio pessoal e empresarial, e no apoio a reorganizações societárias. Além disso, a participação de um profissional externo como mediador do processo pode facilitar a tomada de decisão.
Quando bem conduzida, a sucessão representa uma possibilidade de renovar a empresa e garantir sua prosperidade. “Um dos erros mais comuns é tratar a sucessão como a simples substituição de uma pessoa, em vez de enxergá-la como uma oportunidade de revitalizar todo o sistema”, alerta a consultora sênior da CFEG.
Vale aproveitar o momento para repensar estratégia, governança, papéis e as competências necessárias para os desafios futuros do negócio. Esse olhar ampliado é o que vai viabilizar a sustentabilidade da empresa no longo prazo, transformando a sucessão em um pilar para a longevidade.
