A partir de maio, a NR-1 exigirá monitoramento dos riscos psicossociais, afetando pequenas e médias empresas. Gestores devem encarar com seriedade os desafios e as oportunidades trazidos por essa mudança
A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) do Ministério do Trabalho e Emprego estabelece as diretrizes gerais para a gestão de segurança e saúde no ambiente corporativo. Recentemente atualizada para incluir a atenção aos riscos psicossociais – fatores que afetam a saúde mental e o bem-estar dos colaboradores –, ela já está em vigor em caráter informativo.
A partir de maio, no entanto, as organizações que não se adequarem às mudanças estarão sujeitas à fiscalização. Segundo a líder do Comitê de Recursos Humanos da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), Lucilene Costa, empresas de todos os portes poderão ser autuadas, com possibilidade de interdição das atividades. “Outros riscos referem-se aos afastamentos previdenciários serem convertidos, por nexo causal, em doença do trabalho. Por conta disso, a carga de tributos pode ser majorada, incluindo recolhimentos adicionais de Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e aumento do Fator Acidentário Previdenciário (FAP), levando a acréscimos na folha de pagamento”, afirma.
Empresas que não acompanham esses indicadores podem sofrer também impacto significativo na produtividade e no clima organizacional, conforme explica a diretora de operações e produto da Mapa HDS, plataforma de dados e inteligência para RH e SST, Nayara Teixeira. Ela enfatiza, ainda, o perigo de incorrer em prejuízos financeiros relacionados aos custos com turnover e, até, com ações trabalhistas.
Por outro lado, para o gestor que deseja profissionalizar ainda mais a operação, corrigir desvios e pavimentar um crescimento sustentável, a exigência pode representar uma oportunidade.
Conhecer para gerir
Identificar os riscos da operação é a primeira medida a ser tomada. Para isso, várias técnicas podem ser combinadas. Um cuidado essencial é proporcionar espaços seguros de escuta, em que os profissionais possam falar do impacto real do trabalho na saúde emocional. O processo de coleta de dados pode envolver observação dos ambientes profissionais, conversas individuais e em grupos, preenchimento de questionários anônimos, entre outras ferramentas.
Na observação, alguns sinais devem ser tomados como alertas. Teixeira lista exemplos: aumento de irritabilidade ou retraimento dos profissionais, reações desproporcionais a pequenas demandas, dificuldades de concentração e incremento significativo de retrabalho. No coletivo, impactos no clima, ruídos de comunicação, pouca cooperação e queda de entusiasmo nas atividades da rotina também não devem ser ignorados.
Estudar os dados do RH, como faltas e afastamentos, é mais uma prática indicada. “É fundamental que a empresa também monitore as reclamações trabalhistas e queixas sobre assédio. Esses casos precisam ser tratados de forma preventiva e corretiva”, recomenda Costa.
Depois da etapa de reconhecimento, a organização deve definir um cronograma de ações, com o objetivo de ajustar processos e condutas. Quando um número considerável de pessoas relata sobrecarga, por exemplo, uma resposta eficiente pode envolver revisão de funções, correção de metas, organização de prioridades ou concessão de maior autonomia sobre o cronograma de trabalho.
Assim como a sobrecarga, outras queixas comuns são baixo suporte da liderança, falta de clareza nas comunicações e conflitos de equipe.
Intervenções bem-sucedidas normalmente incluem treinamentos de gestores, novas rotinas de comunicação e alinhamento, espaços de diálogo contínuo e apoio psicológico institucional.
No momento de priorizar ações, a orientação da especialista da Mapa HDS é considerar os seguintes pontos: gravidade (impacto na saúde e segurança), urgência (quanto tempo pode esperar), amplitude (quantas pessoas estão sendo afetadas) e causas comuns (correções que resolvem mais de um problema). Assim, pode-se começar pelas iniciativas com maior impacto no coletivo.
“Além de administrar os pontos críticos, as empresas terão de gerar evidências de identificação, análise e monitoramento dos riscos”, complementa Teixeira.
