De acordo com o governo brasileiro, o Produto Interno Bruto (PIB) dos países que integram os blocos totaliza cerca de US$ 22 trilhões, com um mercado de 718 milhões de consumidores
O Acordo entre o Mercosul e a União Europeia, anunciado em dezembro, é o maior tratado comercial já negociado pelo bloco sul-americano. “O impacto pode ser muito grande, inclusive, para as pequenas e médias empresas (PMEs)”, sublinha o especialista em comércio internacional e sócio-fundador da BMJ, Welber Barral.
O acordo é negociado há mais de duas décadas, comenta Barral, que foi secretário de Comércio Exterior do Brasil, de 2007 a 2011, e atuou como árbitro no Tribunal Permanente de Revisão do Mercosul e no sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).
“É um acordo que tem livre comércio, que tira o imposto de importação aqui e lá, mas também tem a parte de investimentos, de compras governamentais, ambiental e financeira; é realmente bastante avançado e amplo”, ressalta Barral. “Mais de 90% dos produtos estão abrangidos pelo acordo”.
A presença de negócios europeus na economia brasileira, que já é expressiva, também pode ser ampliada. Barral lembra, por exemplo, que São Paulo é considerada a “maior cidade industrial da Alemanha”, devido ao alto número de empresas alemãs. “A ideia é que esses investimentos aumentem ainda mais dos dois lados”, destaca Barral.
Mesmo pequenos negócios que não têm a perspectiva de exportar podem encontrar oportunidades ao se tornarem representantes e distribuidores de produtos europeus no Brasil, ou ao oferecer serviços e produtos para empresas europeias que desejam atuar no país.
O tratado não entra em vigor imediatamente – ainda vai passar por etapas de revisão legal, tradução, aprovação parlamentar e ratificação, o que pode levar cerca de quatro anos. Mesmo assim, os efeitos já devem começar a ser sentidos. “Só o anúncio já gera muito interesse do empresariado, movimentando negócios, feiras e intenção de descobrir mais o mercado de um lado e de outro”, afirma Barral.
Mais exportações e empregos
O superintendente de Relações Internacionais da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Frederico Lamego, menciona que o acordo amplia o acesso das empresas brasileiras a um dos mercados mais exigentes do mundo, mas também fortalece a economia nacional por meio do aumento da produtividade e da criação de empregos. “É um acordo muito positivo; são mais de 25 anos de negociação’ e os benefícios são inúmeros”, diz.
Segundo Lamego, a abertura do mercado europeu tem potencial para impulsionar a indústria brasileira. Hoje, aproximadamente 49% das exportações do Brasil para a União Europeia já são de produtos manufaturados e a expectativa é que essa participação cresça ainda mais.
O impacto também será significativo para o mercado de trabalho. Para cada R$ 1 bilhão em exportações para o bloco europeu, são criados 21,7 mil empregos no Brasil, um número superior ao de outros mercados. Lamego compara com a China, onde o mesmo volume de exportação gera 14,4 mil postos de trabalho. Isso acontece porque na relação comercial com a União Europeia, os produtos industrializados têm um peso maior do que na comparação com o mercado chinês, em que predomina o agronegócio.
“O nosso entendimento é que as empresas brasileiras, de todos os tamanhos, vão ter benefícios com a entrada do acordo”, cita Lamego. Ainda assim, ele alerta para a importância de medidas de estímulo, como a promoção comercial voltada para o fortalecimento da marca Brasil, beneficiando a competitividade dos produtos nacionais e favorecendo a participação das PMEs.
Lamego pondera que existem outras iniciativas de incentivo em curso, como a desoneração das exportações por meio da reforma tributária e o programa do governo Brasil Mais Produtivo, desenvolvido para aumentar a produtividade das PMEs.
As empresas que desejam aproveitar essas oportunidades já devem começar a se preparar, enquanto o acordo não entra em vigor. Neste momento, é importante estudar o mercado; conhecer certificações e regulamentos vigentes nos países europeus; avaliar a possibilidade de firmar parcerias estratégicas; e rever a oferta de produtos e serviços com foco nos diferenciais competitivos.